Sábado, 7 de Março de 2015

SE eu fosse do PS

Se eu fosse militante ou simpatizante do Partido Socialista estaria muito zangado com a imbecilidade que ali grassa.

Olho para o governo Sócrates à distância – e para a imensa malevolência que lhe dedicam os jovens retornados de Angola que envelheceram antes de crescer – e não vejo motivo para a formação política correspondente não se orgulhar de algumas iniciativas que a mentalidade de negreiro procura esbater.

Contrariar a burocracia foi coisa meritória. As soluções seriam afináveis, claro. Foram insuficientes ainda. Mas foi alguma coisa. Querer fazer é já aqui alguma coisa. A desburocratização que arreda os empecilhos à liberdade – empecilhos favoráveis à corrupção – traduz a morte necessária do subsistente estado nacional-católico. É um imperativo da Democracia Parlamentar. Aquele governo começou a fazê-lo. Ninguém mais o fez.

A recuperação dos excluídos pelo sistema escolar, sem qualificações, é outra intenção meritória e outra realização de mérito – que pode e deve melhorar-se, claro – e foi aquele governo o único a fazer alguma coisa nesta área.

O combate ao isolamento, com o prolongamento da “revolução das estradas” é certamente e também alguma coisa – jamais isenta de críticas possíveis, bem entendido – e acrescentou bem estar à vida de populações inteiras.

A preocupação de familiarizar a infância escolar e a juventude do secundário com a banalização da informática, procurando tornar os computadores de uso pessoal acessíveis a todos, traduziu-se também em medida (aliás tocante) que definitivamente acrescentou alguma coisa à vida dos beneficiados, se acaso o não tiver feito à vida colectiva.

A reforma do parque escolar – atacada pelas críticas que, mais do que medíocres me parecem sórdidas – foi decisão de muitos méritos, aliás evidentes.

E depois houve os projectos. Outro aeroporto. Sim, tem que haver outro aeroporto porque os terrenos de expansão do velho aeroporto de Lisboa foram ocupados pela construção (chama-se áquilo agora, “Alta de Lisboa”). Outro aeroporto é solução inevitável. Provincionaliza Lisboa retirar-lhe o aeroporto internacional? Não. Depende da rede de transportes. Um novo aeroporto de Paris não desactivou Orly, nem provincionalizou Paris.

O TGV é uma ideia óbvia. Conexionar esta terrinha de modo rápido com os centros europeus parece coisa de uma evidente importância. Vai isso onerar as gerações futuras? Tenham juízo. Este ano o Euro perdeu 10% do seu valor. O valor da moeda quando chegarmos às gerações futuras será muito diferente. E as gerações futuras chamarão imbecis e cretinos aos idiotas que objectam assim. Ponham uma moeda de cinquenta escudos ao lado de uma moeda de cinquenta cêntimos e examinem (fisicamente) a quebra do valor da moeda enquanto cresceu um rapaz de 15 anos. Há idiotas que realmente não sabem o que dizem e deviam estar calados.

Não percebo, realmente, a timidez diante deste momento da vida política portuguesa. Sócrates era irritante. Em regra os dirigentes políticos determinados são irritantes. E fazem asneiras. Sócrates não foi excepção. O melhor que sabia e o melhor que pôde não chegou. Acontece com frequência. O melhor que queria não chegou a fazer-se. Também não é raro. Andava envolto nos vapores do Blair. Andava. Não tinha distância crítica suficiente quanto ao “capitalismo popular” nem quanto às fragilidades da vida financeira. Quem a tinha? Não foi suficientemente crítico quanto ao aparelho de justiça e à subversão política assente nas faculdades de direito. É verdade. Mas ninguém mais notou isso. Só agora e pela primeira vez alguém disse isso em voz alta (sinto-me um pouco menos só, que ando a apontar isso há trinta anos). A Universidade Católica devia ser alvo de um inquérito (histórico filosófico) e as publicações dos professores de Direito devem ser passadas ao “scanner”, sem excepção, não apenas para a detecção dos plágios (mais do que frequentes) mas para a detecção dos pressupostos passados aos mais novos e incompatíveis com as referências jusfilosóficas do sistema.

Do ponto de vista da política energética, as apostas nas energias limpas e os investimentos estimulados nesse campo parecem-me (dizendo o mínimo) inteligentes. Atingiram-se os 12%, creio, de resposta às necessidades de abastecimento com a energia eólica e a energia solar. É mais do que as barragens dão. E também isso é alguma coisa.

A primeira sediação da indústria aeronáutica no país também não não será um detalhe de desprezar pelo que comporta de aumento da capacidade de resposta do paíos aos novos tempos. Foi uma boa iniciativa.

A lucidez revelada na reflexão (universitária) sobre a tortura que publicou depois de abandonar as funções significa que clarificou ideias sobre um aspecto fundamental na luta pelos direitos humanos nesta terra, onde só não há tortura porque ninguém fala dela e continuará a “não haver” enquanto tal silêncio subsistir…

Há muitas outras coisas que são francamente negativas naqueles anos. Mas não parece que estas possam ignorar-se.

Ao contrário dos idiotas do actual PS eu não apoiei Sócrates. Não sou membro do PS, nunca fui, nunca quis ser e plausivelmente não o quererei nunca. Mas não entendo porque “carga de água” é que só o defensor penal de Sócrates se manifesta em favor do antigo primeiro-ministro. Foi “um grande primeiro-ministro”? Isso já não sei. Mas foi certamente o último e talvez o mais importante actor que na cena política se interessou, nestes desgraçados tempos, pela vida das pessoas, pela promoção social e humana dos seus concidadãos e desencadeou iniciativas adequadas à prossecução desses objectivos políticos.

Não entendo como pode tanto imbecil ver tão pouco. Nunca tantos viram tão pouco, diria. Que vasto bando de imbecis e que pesados eles são.

 
publicado por lino47 às 18:38
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