Segunda-feira, 28 de Abril de 2014

O meu filme parte 1

O meu nome é Adelino José Ferreira de Carvalho. Tenho 62 anos, sou casado, e sou natural de Vale de Vaz, concelho de Vila Nova de Poiares, Distrito de Coimbra.

  Tendo nascido, segundo se consta, no dia 22 de Julho de 1947, ajudado pela Sra. Maria do Loureiro, a verdade é que no meu B.I. consta que fui posto neste mundo no dia 13 de Setembro do mesmo ano, e isto tudo porque os meus pais eram pessoas de muito parcos recursos e como era preciso pagar o registo, não havendo dinheiro, fiquei à espera até melhores dias para ser registado.

  Vivi a minha infância numa casa de quinta onde os meus pais eram caseiros até ter cerca de cinco anos, onde tive as primeiras aventuras que me proporcionaram o facto de com cerca de três anos, nas suas brincadeiras, os meus irmãos mais velhos terem-me enviado por um talude abaixo em cima de um carro de mão e da qual resultou uma fractura grave do braço esquerdo e que me deixou marcas para o resto da vida, além de ainda ter uma vez caído do varandim da ponte para a ribeira de Vale de Vaz quando s mulheres da aldeia lavavam a roupa e outra vez ter entalado a cabeça nas grades da varanda da casa, e que provocou alguma inquietação quanto a minha segurança no futuro.

  Aos cinco anos, ou por aí perto, os meus pais resolveram deixar de ser caseiros de outros e em conjunto com a minha avó e bisavó maternas compraram umas casas de habitação e uns terrenos onde passamos a viver.

  Embora a casa fosse de muito má qualidade, pelo menos era nossa e com o tempo fomos

lentamente melhorando a habitabilidade e o conforto.

  Fiz a escolaridade até à quarta classe sem percalços dignos de nota, já que era um aluno médio mas aplicado e assim abandonei a escola com a quarta classe antes dos onze anos concluídos.

  Mais ou menos entre os oito e os nove anos ao ir com uma das minhas irmãs mais velhas a uns terrenos agrícolas para trazer comida para as ovelhas, e ao ajudar a minha irmã a carregar uma cesta de ramada, resolvemos cair os dois para dentro de um regato do qual resultou mais uma vez ser eu a vítima, ou seja, lá me partiram o braço direito.

  Pelo menos desta vez a situação não foi tão grave, tanto assim que com algum sacrifício consegui fazer a prova de passagem da segunda para a terceira classe.

  Mantive-me por ali na aldeia a ajudar na pequena agricultura de subsistência que se praticava entre os pobres, e antes dos treze anos fui mandado à procura de sustento.

  Como o rendimento familiar era reduzido, e no meu tempo eram já normalmente cinco ou seis à mesa, o meu pai entendeu por bem que eu fosse para empregado de comércio ambulante para a zona do grande Porto por onde andei até aos dezoito anos. Matosinhos, Gaia, Vila da Feira e uma descida de seis meses até à Lourinhã logo seguida de uma subida até Viana do Castelo foram os locais por onde ganhei a vida. Seria talvez de interesse, o porquê destes saltos, mas é complicado escrever sobre a questão.

  Aos dezoito anos, já cansado de andar a vender mercearia de porta em porta, com as dificuldades próprias da época, a trabalhar à chuva e ao frio sem sequer ter por cobertura um simples fato de oleado, a levantar às cinco ou seis da manhã e deitar às onze horas ou meia-noite, resolvi emigrar para Lisboa.

  Não poderá dizer-se que a emenda tenha sido melhor do que o soneto, mas pelo menos havia mais oportunidade de escolher o trabalho que fosse mais interessante.

  Quando cheguei a Lisboa, empreguei-me numa empresa de camionagem de serviços combinados com a CP, onde desempenhei as funções de ajudante de camionista e mais tarde despachante, e como me sentia razoavelmente bem, aí me mantive até ser chamado a cumprir o Serviço Militar aos vinte e um anos.

  Assentei praça, que é o mesmo que dizer apresentei-me ao serviço e fui incorporado no dia 22 de Outubro de 1968 no Regimento de Infantaria de Aveiro, onde fiz a recruta de cerca de dois meses, após o que fui transferido para a Escola Prática da Administração Militar em Lisboa para frequentar a formação da especialidade e frequentar a escola de cabos de onde acabei, não sei porquê, com a especialidade de 1º Cabo Caixeiro.

  Normalmente nessa época, no início de 1969, quando finalizávamos a formação militar éramos de imediato mobilizados para a guerra nas Colónias, e como eu não era nem sou diferente dos outros fui mobilizado para Moçambique.

  Não fiquei muito preocupado, porque além de fazer já parte das nossas consciências de que teria de acontecer mais tarde ou mais cedo, e a minha especialidade era de alguma maneira mais para o serviço de abastecimentos, foi na realidade o que me aconteceu, já que fui para a Manutenção Militar de Lourenço Marques, actualmente Maputo onde permaneci entre 3 de Agosto de 1969 até 03 de Outubro de 1971, tendo chegado a Portugal e passado à disponibilidade em 21 de Outubro de 1971.

 

  Após passar à disponibilidade, empreguei-me na empresa onde trabalhava antes de cumprir o Serviço Militar mas também aí senti que estava na altura de dar um salto em frente.

  Como tinha aproveitado o tempo disponível que tinha na Manutenção Militar, para tirar o ciclo preparatório, decidi que era capaz de procurar outra actividade que exigisse mais esforço intelectual e menos físico.

  Então candidatei-me ao lugar de factor/condutor no Metropolitano de Lisboa.

  Após uma rigorosa selecção e uma formação intensa, à qual se apresentaram cerca de quatrocentos candidatos, chegamos ao fim da formação apenas quatro, que fomos admitidos de imediato.

  De referir que entre a chegada de Moçambique e a entrada para o Metropolitano de Lisboa continuei a trabalhar na empresa de camionagem mas já como controlador de mercadorias e despachante.

Estamos nesta altura em finais de 1972 e a emigração para França está já na sua fase descendente, mas como já haviam alguns irmãos e amigos meus em França, eu deixei-me iludir pelo dinheiro, não mais fácil, mas pelo menos mais abundante e fui à aventura tentar a sorte, abandonando um emprego estável e que me tinha custado bastante a conseguir.

  Mas como disse alguém, e se ninguém o disse digo-o eu, só nos devemos arrepender das asneiras que não fizemos, porque assim se dá mais valor à vida que se viveu.

  Terminada de forma menos feliz a aventura em França, porque nessa altura já era muito complicado encontrar alguém que desse emprego a ilegais e era quase impossível encontrar quem nos legalizasse, ao fim de seis meses fui obrigado a regressar a Portugal e a voltar ao principio.

  Ainda tentei a sorte no Metropolitano de Lisboa, porque tinha sido um dos melhores classificados no curso, e porque fui um bom funcionário enquanto lá permaneci, mas como era feio chamarem-me maluco, mandaram-me fazer exames psicológicos e electroencefalográficos e deram-me como desculpa que os médicos tinham encontrado um ligeiro desequilíbrio que poderia pôr em risco a segurança nos comboios.

  Resolvi então bater à porta do Instituto de Emprego e Formação Profissional, e depois de alguma persistência e da boa vontade de uma funcionária bastante simpática, fui colocado no único lugar vago que havia para um curso de Técnico Instalador de Equipamentos Eléctricos ou somente Electricista.

Após uma formação intensiva de seis meses, nos quais passei grandes dificuldades de subsistência já que era obrigado a viver num quarto particular alugado em Alverca e a alimentar-me com o subsídio que o instituto me dava, arranjei emprego numa das maiores e mais conceituadas empresas de montagens industriais na área das instalações eléctricas, onde me mantive de 1974 até 1985.

 Da qual só me afastei porque a empresa iniciou um processo de falência que veio a terminar passado pouco tempo.

  Nesta empresa passei alguns dos meus melhores tempos de aprendizagem, não só porque era uma empresa grande, como os funcionários eram postos à prova em todas as matérias e éramos obrigados a aprender a trabalhar.

  Posso mesmo dizer que subi todos os degraus que era possível subir na escala profissional, desde ajudante, oficial de segunda, oficial de primeira, chefe de equipa e encarregado.

  Participei em obras de grande envergadura, tais como, Secil e Portucel em Setúbal, Refinaria e Terminal de Petroleiros em Sines, Soporcel na Figueira da Foz, Central Térmica em Ponta Delgada, Finicisa em Portalegre, ou uma importante Fábrica de Produtos Químicos na Síria.

publicado por lino47 às 15:19
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Agosto 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


.posts recentes

. O Professore Catedrático

. Professores.

. Dos fracos não reza a his...

. comentários

. A Guerra na Síria

. O eucalipto

. O meu patrão é rico

. Cavaco Silva

. O Marquês

. Amadeu Homem

.arquivos

. Agosto 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Outubro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Março 2013

. Junho 2010

. Maio 2010

. Junho 2009

. Abril 2009

. Março 2009

.favorito

. Burla

blogs SAPO

.subscrever feeds