Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Estátua de Sal

"DOIS MESES NA CADEIA E...?

(Nicolau Santos in Expresso Diário, 19/01/2015)

José Sócrates está preso preventivamente há dois meses e por lá vai continuar muito tempo por, segundo o Ministério Público, o seu processo ser de grande complexidade. Até agora, o que se sabe vem das fugas de informação que vão aparecendo nos jornais com canais privilegiados ao sistema de justiça. Mas entretanto o que se sabe parece apontar, sem margem para dúvidas, para um exercício de humilhação do ex-primeiro-ministro por parte de quem conduz o processo e do director do estabelecimento prisional de Évora.
No tempo da Inquisição, havia métodos fisicamente bastante violentos para obrigar os presos a confessar os seus crimes contra a Igreja. No tempo da Pide, os métodos eram física e psicologicamente brutais. No tempo da democracia parece que o exercício da humilhação é essencial para «quebrar» os presos.
E é assim que se assiste, com estupefacção e incredulidade, ao director do estabelecimento prisional de Évora intimar o preso número 44 a entregar até hoje dois pares de botas de cano curto que tem estado a usar. Ou a proibição de lhe ser entregue um cachecol do Benfica (coisa que nas cadeias, como todos suspeitamos, não existe…). Ou de livros que vários amigos lhe enviaram ou tentaram entregar pessoalmente (os livros são altamente perigosos, como se sabe). Ou de comida. Ou um edredão porque as celas não são aquecidas – situação que terá entretanto sido resolvida. Ou a violação de correio enviado pelos seus advogados. E é assim que também se sabe que, no interrogatório que conduziu, o juiz encarregue do processo tratou sempre José Sócrates por José Pinto de Sousa.
Até agora, nas referidas fugas de informação primeiro havia um motorista que ia entregar malas cheias de dinheiro a Paris. Depois, já não eram malas, mas envelopes. Depois, o motorista já não ia até Paris. Depois, o amigo de Sócrates, Carlos Santos Silva, tinha um milhão de euros em notas num cofre do Barclays Bank. Afinal, no cofre estavam 50 mil euros, 50 mil dólares e alguns milhares de bolívares venezuelanos.
No tempo da Inquisição, havia métodos fisicamente bastante violentos para obrigar os presos a confessar os seus crimes contra a Igreja. No tempo da Pide, os métodos eram física e psicologicamente brutais. No tempo da democracia parece que o exercício da humilhação é essencial para «quebrar» os presos.UE
Há uma persistência nas fugas de informação envolvendo sempre milhões, que depois se vão esvaziando e passam a milhares. É fundamental fazer passar a ideia dos milhões, porque senão as acusações de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais tornam-se menos credíveis. E à medida que passam os dias mais se radica a ideia que o Ministério Público prendeu para investigar, em vez de ter prendido depois de investigar. E que o caso se vai arrastar por muitos meses para instilar na opinião pública a ideia de que, se está preso há tanto tempo, é porque é seguramente culpado. Há, como é evidente, um indiscutível exercício de humilhação do ex-primeiro-ministro, que passa pelo tempo que estará em prisão preventiva e o esquecimento a que o caso, pouco a pouco, será votado, mas também pelos episódios atrás relatados.
É claro que há muitas zonas sombra que estão mal explicadas por Sócrates. Mesmo quando se pede dinheiro a um amigo, sabe-se quanto se pede, e quem empresta sabe quanto empresta. Neste caso, nem Sócrates nem Santos Silva sabem. Quando há um processo de herança, sabe-se que o cônjuge fica com metade, mais uma parte da metade restante a dividir igualmente com os filhos. Ora Sócrates terá ficado com 75% da herança do pai. Não faz sentido. Ou o ordenado da Octapharma, mais o de outra pequena farmacêutica, do seu amigo Paulo Lalanda de Castro.
Tudo isto, que vai sendo conhecido pelas cirúrgicas fugas de informação, mais o que o motorista há-de ter dito para deixar de estar em prisão preventiva, parecem mesmo assim ainda estar ainda muito longe do objectivo da acusação: provar que os 23 milhões de Santos Silva eram, no todo ou em parte, de Sócrates; e que esse dinheiro resultou de corrupção praticada enquanto foi primeiro-ministro. Mas quem sabe se, de humilhação em humilhação, o Ministério Público não consegue que Sócrates confesse tudo e evita-se a maçada de se andar a investigar um processo de especial complexidade?"

publicado por lino47 às 01:29
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