Sexta-feira, 21 de Março de 2014

A Outra Face da Guerra

A OUTRA FACE DA GUERRA

Com esta minha carta, não quero, não posso e não devo, escamotear a verdade daquilo que se passou nas três frentes de guerra durante os treze anos que ela durou, e só quem não passou o sofrimento que ela causou a si próprio ou a alguém da sua familia, é´que pode ter o descaramento e a falta de vergonha necessária para dizer que a guerra nas antigas colónias não passou de um simples escaramuça.

Gostava no entanto de deixar registada a minha passagem pelo serviço militar e pela minha participação neste episódio dramático que tão barbaramente marcou a maior parte da população portuguesa da época.

Assentei praça no «RIA», Regimento de Infantaria de Aveiro em Outubro  de  68  onde  fiz  a  recruta, tendo desde a primeira hora sido preparado física e psicologicamente, para mais dia menos dia ter de enfrentar o desafio de ir combater em terras do Ultramar.

Quis o destino que no fim da recruta fosse enviado para a «EPAM», Escola Prática da Administração Militar, em Lisboa para frequentar o curso de caixeiro, fosse lá o que isso fosse, e consequentemente o curso de cabos, que durou cerca de oito semanas.

Depois de «pronto» fui informado de que o meu número mecanográfico já tinha sido marcado para ir bater com os costados em Moçambique, no entanto permaneci durante cerca de quatro meses destacado em S.ta Margarida, a fazer serviço «à linha» aguardando embarque e onde permaneci até Junho de 69.

Nessa data mandaram-me gozar os dez dias de licença a que tinha direito e apresentar-me a embarque no paquete Infante D. Henrique a 18 de Julho passando pelo Quartel Geral de Adidos para levantar o equipamento camuflado e onde permaneci três dias em franca convivência com os percevejos que mevinham visitar  à cama todas as noites e procederem à recolha de sangue diária para a sua alimentação.

Não tinha a mínima ideia do local onde iria ser colocado, e nem mesmo quando desembarquei em Maputo, «Lourenço Marques», onde  passei quatro dias no Quartel Geral de Adidos local, eu sabia qual seria o meu destino.

Ao fim de quatro dias apareceu uma carrinha para me levar e mais alguns camaradas com destino ao centro de logística da Manutenção Militar que se encontrava na estrada da Beira,  Bairro do Jardim, um pouco afastado da cidade.

Permaneci aí destacado durante os vinte e seis meses que durou a minha participação no conflito e onde tinha como missão a segurança das instalações em conjunto com alguns camaradas que já se encontravam no local e outros que foram chegando ou que chegaram comigo.

Não posso deixar de realçar o facto de que a sul do rio Zambeze não se passava nada que desse a impressão de que se estava em guerra.

Lourenço Marques era na altura uma cidade bastante cosmopolita e com um forte sentido europeu, onde se vivia calmamente numa enorme actividade diária tanto diurna como nocturna.

Não se via nas ruas um único militar armado a não ser os militares da PM, PN, PA e da PSP e que mal davam nas vistas a não ser à noite na zona dos cabarés e «boites».

Foram assim passados vinte e seis meses de doce remanso, onde abundava a boa vida, a boa mesa, boas cervejas bebidas nas esplanadas e nos bares de Lourenço Marques, algumas miúdas e o divertimento que permitiam os 900 escudos mensais do salário de 1º Cabo.

Não fui eu que escolhi e não tinha padrinhos militares de alta patente, simplesmente tive sorte.

Mas no entanto, apercebi-me bastante bem da realidade do que se passava no norte de Moçambique e vou explicar porquê:

Por questões que não interessam divulgar, permaneci destacado no Quartel  General durante vários meses onde desempenhei  funções administrativas e  onde tinha como missão receber o correio que não encontrava destinatário e a reencaminhá-lo, como também fazia de escrivão na elaboração de processos e lia em primeira mão o correio militar proveniente das outras unidades, inclusivamente das zonas de combate.

ambém era na minha secção que se apresentavam familiares de militares que se encontravam noutras unidades e dos quais não recebiam noticias há muito tempo e que normalmente se encontravam preocupados. Então a minha missão era descobrir onde estes se encontravam, avisar as respectivas famílias e avisá-los de que as famílias se encontravam preocupadas.

Além disso, na Manutenção Militar, assistia de perto ao envio de milhares de toneladas de rações de combate para aquela que foi designada como Operação Nó Górdio.

Também tive sempre o cuidado de andar mais ou menos bem informado, não pela imprensa local, como é de calcular, mas sim por relatos de outros camaradas conhecidos que vinham das zonas de combate para passar uns dias de descanso na cidade, e por outros que eu ía visitar ao Hospital Militar, também conhecidos ou que alguém da minha terra me pedia para o fazer e a quem normalmente levava umas latas de fruta de conserva ou uns pacotes de biscoitos e uma palavra amiga.

       

publicado por lino47 às 01:22
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