Segunda-feira, 28 de Abril de 2014

A minha Guerra

A OUTRA FACE DA GUERRA

 

 

Com esta minha carta, não quero, não posso e não devo, escamotear a verdade daquilo que se passou nas três frentes de guerra durante os treze anos que ela durou.

Gostava no entanto de deixar registada a minha passagem pelo serviço militar e pela minha participação neste episódio dramático que tão barbaramente marcou a maior parte da população portuguesa da época.

Assentei praça no «RIA», Regimento de Infantaria de Aveiro no dia 22 Outubro  de  1968 onde  fiz  a  recruta, tendo desde a primeira hora sido preparado física e psicologicamente, para mais dia menos dia ter de enfrentar o desafio de ir para uma das três frentes de guerra que se desenrolavam no antigo ultramar português, Angola, Guiné e Moçambique.

Quis o destino que no fim da recruta fosse enviado para a «EPAM», Escola Prática da Administração Militar, em Lisboa para frequentar o curso de caixeiro, fosse lá o que isso fosse, e consequentemente o curso de cabos, que durou cerca de oito semanas.

Depois de «pronto» fui informado de que o meu número mecanográfico já tinha sido marcado para ir bater com os costados em Moçambique, mas que iria permanecer em S.ta Margarida, a fazer serviço «à linha» aguardando embarque e onde permaneci até Junho de 69.

Nessa data mandaram-me gozar os dez dias de licença a que tinha direito e apresentar-me a embarque no Infante D. Henrique a 18 de Julho passando pelo Quartel Geral de Adidos para levantar o equipamento camuflado.

Não tinha a mínima ideia do local onde iria ser colocado, e nem mesmo quando desembarquei em Maputo «Lourenço Marques», onde  passei quatro dias no Quartel Geral de Adidos local, eu sabia qual seria o meu destino.

Ao fim de quatro dias apareceu uma carrinha de transporte de tropas para me levar junto com alguns camaradas com destino ao centro de logística da Manutenção Militar que se encontrava na estrada da Beira,  um pouco afastado da cidade.

Permaneci aí destacado durante os vinte e seis meses que durou a minha participação no conflito e onde tinha como missão a segurança das instalações em conjunto com alguns camaradas que já se encontravam no local eassim como outros que foram chegando ou que chegaram comigo.

Não posso deixar de realçar o facto de que a sul do rio Zambeze não se passava nada que desse a impressão de que nos encontrava-mos em guerra.

Lourenço Marques (Maputo) era na altura uma cidade bastante cosmopolita e com um forte sentido europeu, onde se vivia calmamente numa enorme actividade diária tanto diurna como nocturna.

Não se via nas ruas um único militar armado a não ser os militares da PM, PN, PA e da PSP e que mal davam nas vistas a não ser à noite na zona dos cabarés e «boites».

Foram assim passados vinte e seis meses de doce remanso, onde abundava a boa vida, a boa mesa, boas cervejas bebidas nas esplanadas e nos bares de Lourenço Marques, algumas miúdas e o divertimento que permitiam os 900 escudos mensais do salário de 1º Cabo.

Não fui eu que escolhi, não tinha padrinhos nem conhecia militares de alta patente, simplesmente tive sorte.

No entanto, apercebi-me bastante bem da realidade daquilo que se passava no norte de Moçambique e vou explicar porquê:

Por questões que não interessam, mas que explicarei à frente, permaneci destacado no Quartel  General durante vários meses onde desempenhei funções administrativas e  onde tinha como missão receber o correio que não encontrava destinatário e reencaminhá-lo, assim como também fazia de escrivão na elaboração de processos e lia em primeira mão o correio militar proveniente das outras unidades, inclusivamente das zonas de combate.

Como o comandante da unidade tinha um filho que se encontrava em fim de comissão, sendo amigo e camarada do comandante do Quartel General, estes entenderam entre sí que o filho do comandante da MM poderia dar por finda a comissão se este encontrasse quem pedesse substituí-lo, senão teria de esperar pela rendição individual que poderia demorar dois ou três meses 

Como tal, estando eu ali à mão de semear não era dificil fazer o favor ao amigo  e ser eu a substituir o outro.

Também era na minha secção que se apresentavam familiares de militares que se encontravam noutras unidades e dos quais não recebiam noticias há muito tempo e que normalmente se encontravam preocupados.

Então a minha missão era descobrir através dos ficheiros onde estes se encontravam destacados , avisar as respectivas famílias e avisá-los de que as famílias se encontravam preocupadas.

Além disso, na Manutenção Militar, assistia de perto ao envio de milhares de toneladas de rações de combate para os destacamentos que operavam no norte do país e para aquela que foi designada como Operação Nó Górdio.

Também tive sempre o cuidado de andar mais ou menos bem informado, não pela imprensa local, como é de calcular, mas sim por relatos de outros camaradas conhecidos que vinham das zonas de combate para passar uns dias de descanso na cidade, e por outros que eu ía visitar ao Hospital Militar, também conhecidos ou que alguém da minha terra me pedia para o fazer e a quem normalmente levava umas latas de fruta de conserva e uma palavra amiga.

publicado por lino47 às 15:11
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