Sábado, 17 de Maio de 2014

História do bairro da Bica por Amadeu Homem

OUTRA HISTÓRIA DO BAIRRO DA BICA
(Para o meu Amigo Carlos Ferreira, que me pediu a escrita de mais um conto)

O Delfim era escriturário de 2ª classe da Câmara Municipal de Lisboa e morava no Bairro da Bica, numa casinha de dois andares, mesmo perto do sítio onde se cruzam os dois ascensores. Nas vizinhanças gostavam dele: era um quarentão celibatário, mas muito respeitador e nada havia a dizer, aparentemente, quanto aos bons costumes. Não fumava, recolhia-se cedo a casa e tinha no varandim do seu 1º andar um canário, que colocava a tomar sol, sempre que a correspondente poalha de oiro se desprendia do Mar da Palha.
Na casa em frente viviam duas irmãs casadoiras, uma delas com opulências de seios, a Georgina, e outra com jogos de quadris, a Manelucha, que era um desafio ao Deus da Semana Santa. Ambas se interessavam bastante pelo Delfim, mas nenhuma confessava à outra que as coisas, bem conversadinhas, até poderiam resolver-se no dia das Noivas de Santo António. Não obstante os jogos de cintura da Manelucha, a verdade é que a Georgina levava a palma à irmã, em todos os pormenores que costumam pôr um homem a salivar muito mais do que o cão do Pavlov quando ouvia a campainha. Um turista espanhol que um dia passou por ali e teve a rara sorte de divisar a Georgina, de saia travada, a fazer festas - toda dobradinha, benza-a Deus - ao cão Tarrenego, do sapateiro Vicente, não se conteve e desbundou esta apreciação andaluza : - Oh, Madre de todos los pecadores ! Tentaciones de Infierno ... por supuesto !
Mas o certo é que a Manelucha, menos dotada na frontaria mas não no traseiro, não desarmava e, sempre que se cruzava com o Delfim, assemelhava-se a um daqueles ornamentos chineses que, batidos pela brisa, para ali ficam a fazer tlim-tlim-tlim, até que a codícia do macho se lembre de que aquilo só pode resolver-se com um bom vendaval. 
Todo o bairro discutia, mais ou menos em segredo, quem seria aquela que levaria a palma à outra, na disputa latente dos favores do Delfim - e do correspondente cartão de cidadão, com o estado civil atestado pela Conservatória do respectivo Registo. Era voz corrente , e largamente maioritária, que a Georgina acabaria por ganhar. Por isso, foi com alguma perplexidade dos apostadores que no Bairro da Bica correu a notícia de que o Delfim tinha desaparecido, numa sexta-feira, com a Manelucha, para voltar a aparecer na quarta-feira seguinte, com a mão a rodear a sexta parte do traseiro da moça e cada um deles com uma aliança , muito brilhante no dedo. 
Claro que, a partir daí, foi a Manelucha a dona da alpista do canário, tanto em sentido próprio, como figurado. 
Correu o tempo. A Georgina, imperturbável e sempre amiga da irmã, foi requestada por um doutorzito de Coimbra, desempregado (como seria de supor), que a levou para as margens do Mondego e com ela se deliciou a ouvir o passarinho do Bernardim - tanto em sentido específico como em alcance genérico. 
Quem, verdadeiramente, não se contentava com as explicações correntes era o sapateiro Vicente, o qual, afagando o lombo do cão Tarrenego, obtemperava : « Aqui há coisa ! Aqui há coisa ! Fosse eu a decidir, e filava a Georgina. Que raio teria dado ao Delfim ?». 
O enigma desatou-se muito depois, num fim de noite em que o sapateiro Vicente apanhou desprevenido o Delfim, já bem bebido, numa sessão de fado vadio, promovido pelo Grupo Excursionista do " Espera aí keu já i vou". «Oh Delfim, meu velho patife, somos amigos desde sempre. Fui eu que ajudei a morrer o teu pai, coitadinho, que do outro lado nos olha e nunca falta, em espírito, a estas desgarradas. Vai ser hoje que tu me irás dizer por que razão casaste com a Manelucha, quando a Georgina, não desfazendo, dava para desfazer um homem todo e ainda lhe sobravam recursos». O Delfim resistiu: « Oh, Amigo Vicente, lá tá você a querer saber o que não pode e não deve». E o Vicente : « Homem, dize lá ! Sabes que eu não sou pessoa para subir e descer com o que disseres, como o Elevador daqui do bairro. Então ? »
O Delfim suspirou duas ou três vezes. Acendeu um cigarro e apagou-o logo de seguida. Ainda tentou furtar-se , dizendo : « Vamos mas é ouvir o Zé Pinhão, caraças, grande voz, parecida com a do Fernando Farinha a interpretar aquele fado do ' rastejamos como sapos / com a farda em farrapos / pela terra de ninguém" . Escute lá isto, que é mesmo bom ». Mas o Vicente não desarmou . Ouviu o fado todo, bateu muitas palmas e voltou á carga : « Homem, eu sou quase igual ao teu pai, porra ! Porquê a Manelucha e não a Georgina ?». Delfim, enfim, rendeu-se. E mesmo sem esperar o fim da sessão do fado vadio, arrastou o Vicente para um canto escuso da casa do venerando Grupo Excursionista "Espera aí keu já i vou" e declarou, baixinho, baixinho , baixinho : « A Georgina, Tio Vicente, já estava eu farto de 'comer'. Mas a minha Manelucha tornou claro que só me mostraria as cuecas com anel no dedo. Percebe agora ?».
O Vicente acenou com a cabeça e desapareceu.

Gosto ·  · 
publicado por lino47 às 11:28
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