Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

Naquele tempo é que era bom

Naquele tempo é que era bom.
E tu nunca conheceste a fundo a Quinta da Curraleira, O Vale Fundão, a Quinta dos Peixinhos,o Bairro Chinês, a Musgueira, A pedreira dos Húngaros e centenas de outros bairros de tábuas e latas, onde viviam milhares de pessoas sem electricidade, com uma torneira colocada pela câmara onde o povo se abastecia. Nunca deves ter visto dezenas de mulheres, raparigas e crianças à porta dos quarteis com panelas e latas à espera que o oficial de dia desse autorização para entrarem e ir à cozinha buscar os restos da sopa para os filhos. Também nunca estiveste à espera do Natal para a Caritas te dar um camisola de lã com a qual andavas vestido até ao ano seguinte. Nunca tiveste de andar com as botas que deixaram de servir ao filho do vizinho.
Mas antigamente é que era bom e Portugal estava à beira de se tornar uma Suíça, onde morriam 80 crianças em cada mil no primeiro ano de vida. Onde o nosso pai percorria na noite de domingo para segunda mais de quarenta quilómetros a pé pelas escarpas da Serra para trabalhar nas pedreiras, nas estradas ou nas minas de segunda a sábado. Única maneira de ter salário certo durante uns meses ou umas semanas, porque o resto do ano era à jorna a ganhar uma miséria.
Mas a memória é curta e pessoas como tu e como eu que viveram esse inferno e dizem que antigamente se era mais feliz.
Ai tao feliz que eu fui por ter oito ou nove anos, ter de me levantar da cama, ir mal vestido, descalço, em jejum, gelado, a pisar gelo, a correr, dois quilómetros para cada lado, à quinta buscar meio litro de leite para os irmão mais pequenitos e depois ir a correr para uma escola gelada onde permanecia encharcado até às treze horas. 
Mas ai tão feliz que eu fui, quando chegava a hora de almoço, ia a correr a casa almoçar muitas vezes um naco de broa e uma maçã. para regressar a correr à escola.
Ai tão feliz que eu fui, por aos doze anos deixar a terra e a família para ir para marçano trabalhar das cinco da manhã até às dez da noite numa mercearia e percorrer dezenas de quilómetros por dia a vender azeite, petróleo e tudo o que se vende numa mercearia.
Ai tão feliz que eu fui!

 
 
publicado por lino47 às 13:01
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